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Cantares (Antonio Machado)

TRADUÇÃO LIVRE DE VERA DIAS

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão
Gosto de ver-los pintar-se
de sol e grená, voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…

Nunca persegui a glória
Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar…

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar”…

Golpe a golpe, verso a verso…
Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe viram chorar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…
Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.




Minha gente amada ! Segundo dia de fisioterapia e quantas lições aprendidas em apenas uma hora e 40 minutos de sessão. E para abrir a postagem de hoje ofereço a vcs a tradução de um dos mais belos poemas que conheço de um poeta espanhol chamado Antonio Machado (veja mais sobre sua vida e obra no link que conduz às páginas do Wikipedia. A profunda mensagem de sabedoria do poema que oferto a vcs hoje tem tudo a ver com a experiência vivenciada por mim hoje.
Vamos ao relato do segundo dia dessa jornada de minha perna de pau rumo à uma perna mais evoluída e maleável. (risos), é minha gente, temos que aprender a rir de nós mesmos e da nossa situação . Sem um pouco de humor não dá pra aguentar , não.
Hoje cheguei um pouco mais cedo conduzida por meu irmão em minha cadeira de rodas. Estava usando uma roupa de ginástica de malha o que tinha sido pedido pelo Luiz, meu fisioterapeuta,  na consulta anterior, na hora que fui embora. E como estava com tempo sobrando, comecei a observar os outros pacientes da sala de espera que como eu também esperavam seus fisioterapeutas.
Se encontravam presentes nessa agradável sala pintada de azul celeste (e saibam que essa cor é considerada repousante e transmite tranquilidade - nota de uma webdesigner observadora incorrigível de detalhes que não deixa escapar nada KKK) quatro pacientes : um jovem aparentando vinte e poucos anos com a perna esquerda metida dentro de um engradado de aço que a perfurava de lado a lado (mais tarde já em casa pesquisando na internet descobri que o nome desse assustador objeto é fixador ortopédico que se utiliza no caso de fraturas sérias expostas). O segundo paciente era um homem idoso aparentando estar na casa dos 70 e poucos usuário de uma bengala e os dois últimos pacientes eram duas senhoras idosas de cabelos branquinhos que deviam estar na faixa dos oitenta e poucos. Ambas usavam bengala também.
O meu irmão pegou uma revista e começou a folheá-la e eu fiquei ali observando as pessoas tentando adivinhar o problema que cada uma devia estar enfrentando para estarem ali. O problema do rapaz nem precisava de muita adivinhação e os idosos me pareciam que estavam ali ou por problemas de coluna ou qualquer outro em decorrência da idade avançada. Se há uma coisa que já aprendi nessa vida é que ninguém escapa : cedo ou tarde teremos um desses problemas gerontológicos e isso faz parte da vida.
Nisso meu irmão se levanta de súbito ao ouvir meu nome sendo chamado pelo alto falante e me conduz em direção à sala de atendimento do meu sorridente e simpático fisioterapeuta que se levanta da cadeira ao me ver entrar e vai logo me dizendo :" Olá bom dia ! Pronta para seu desafio de hoje ? ", Fico surpresa com esse cumprimento e comecei a rir.
Desafio de hoje ? , pensei curiosa, o que ele vai me aprontar ?
Em seguida , ele cumprimentou efusivamente meu irmão que se despediu de mim dizendo que estaria lá fora me esperando quando a sessão terminasse. E me deixa um tanto assustada na companhia do meu surpreendente fisioterapeuta. Ele olhou para mim e falando bem de frente, procurando articular bem as palavras pois já sabia que eu era surda,disse :
"Vera, tracei um plano pra vc e hoje vamos começar a colocá-lo em prática. Mas te digo uma coisa: ao final desse plano com toda certeza vc vai voltar a andar. Estou convencido disso.Estive estudando seus exames e cheguei à conclusão que isso será possível. Mas vai depender de sua força de vontade e total colaboração. Eu posso fazer minha parte mas vc tem que fazer a sua. E hoje temos uma colega fisioterapeuta que vai me ajudar. Vamos colocá-la deitada naquele tapete ali e praticar um exercício. Vou chamá-la agora. Espera um instante !"
E nisso ele se retira e vai para uma saleta ao lado. Não dá nem dois segundos e surge uma moça sorridente, aparentando trinta e poucos anos, morena e alta, achei-a parecida com a Ivete Sangalo. Poderiam ser irmãs. E ela se apresentou assim: "Oi , meu nome é Monica. Vamos nos divertir um pouco hoje ! Esse seu exercício vai deixar vc bem relaxada !" Vamos começar ? ", E os dois empurram minha cadeira para o meio da sala e me levantam cada um segurando por um braço e me deitam rapidamente com uma habilidade espantosa no chão da sala em cima do tapete. Não deu nem  tempo pra eu reclamar de nada. Se doeu a perna naquela hora ? Claro, mas foi tudo tão rápido que quando dei por mim já estava deitada de barriga pra cima no chão.
E eu ali olhando pra cara dos dois que se agacharam no chão perto de mim , cada um de um lado e do outro, e o Luiz na maior cara de pau cruza meus braços no peito e me pede uma coisa que me pareceu à primeira vista loucura e pensei: "Esses dois piraram !" .
" Vera, queremos que vc tente rolar no chão."
Quêee ?? Rolar ?? como ?E sem me dar tempo para protestar,  começam a me rolar pelo chão. Vou te explicar o motivo desse exercício.Enquanto eu, assustada me sentindo um barril de chopp sendo rolado daquele jeito, o Luiz para por um minuto e diz: o objetivo aqui é começar a te mostrar que vc pode fazer muita coisa sem usar suas pernas e essas ações e exercícios vão te ajudar muito no dia que vc der seu primeiro passo de verdade.  Você vai passar agora por todas as etapas que um bebê passa antes de dar o primeiro passo : aprender a rolar, a se arrastar e a engatinhar e finalmente a andar. Sem passar por essas fases o ser humano não aprende a dominar o andar. Vc precisa ganhar de volta sua coordenação motora e sua força muscular. Mas isso não começa com suas pernas. Vc ficou muito tempo acamada e tem de recuperar todo um conjunto para se sentir segura. Vera, a gente não caminha só com as pernas. Caminha também utilizando outros membros. E sem reforçá-los o seu andar não vai ficar perfeito. Quer ver uma coisa: Não use suas pernas agora. Use seus braços. Apenas seus braços e tente rolar com eles. Faça com que seus braços e tronco deem o impulso. Ignore suas pernas. Vc agora é só braços e tronco. Tente !. "Gostei da firmeza e conviçção de sua pronúncia. E tentei mesmo gente ! E surpresa !! Virando e forçando meus braços cruzados no peito e empurrando meus ombros, maravilha das maravilhas consegui me virar de lado ! E o Luiz e Monica pareciam duas crianças brincando de me rolar de um canto a outro do tapete. Eu não pude deixar de rir o tempo todo. E a minha perna ? Doia, mas engraçado gente ! Era uma dor suportável !"E quando dei por mim lá estava o Luiz dizendo : Vera, atenção, agora seremos como lesmas nos arrastando pelo chão de barriga pra baixo. Use apenas a força dos seus braços. Faça como eu e a Monica. E assim fomos nós três nos arrastando pelo tapete, só usando cotovelos, braços e ombros.
Gente, uma coisa incrível estava acontecendo ! Está certo, eu não estava ainda andando mas como me divertia com esses "andares" inusitados. Proibida de usar as pernas, mas descobrindo que não precisaria delas se pudesse simplesmente me arrastar e fazer de conta que os seres humanos só tinham braços e tronco. Impressionante !
Isso durou cerca de meia hora. E o Luiz parou por um instante para me avisar. "Agora Vera, vamos fazwr um intervalo e colocaremos vc em posição de noventa graus com as pernas esticadas no chão. E vamos fazer uns exercícios de alongamento com seus braços. Imita a gente !" e lá se foi ele e a Monica lado a lado  abaixando e elevando os braços e me fazendo estiá-los até a ponta dos pés.
Nessa hora a perna começou a dar fisgadas de dor, mas sabem de uma coisa ? Eu mordi os lábios e tentei aguentar. Comecei a suar em bicas, mas pela primeira vez comecei a pensar depois de muito tempo que talvez pudesse aguentar essa dor mais um pouquinho.  Acho que fiz umas dez flexões antes de pedir a eles para parar e beber um pouco de água.
E comentei com eles: "Incrível ! Não acredito que fui capaz de fazer isso !" e a resposta dele : Ah, isso é só o começo. Vamos marcar um dia pra vc  aqui e trazer um maiô. Pois vamos omeçar exercícios de hidroterapia. Vamos treiná-la na piscina da clínica ! Debaixo d´água vc vai se sentir ainda mais ágil e com menos dor ainda !"

Puxa, essa me pegou de surpresa. Mas claro, hidroterapia ! Isso também faz parte do tratamento e eu sempre adorei nadar. Beleza ! Já estava começando a me entusiasmar.
E assim se passaram uma hora e quarenta minutos antes do Luiz anunciar : "Vera, por hoje é só ! Amanhã teremos mais exercícios como esse e outras novidades para vc !"

E sabem o que a bobona aqui fez ? Começou a chorar de emoção. E quando dei por mim a Mônica estava me dando lenços Kleenex para enxugar as lágrimas e o Luiz rindo e me dizendo : "Ora, Vera, deixa pra chorar quando vc voltar a andar ! Até lá nada de chororô ! Temos muito trabalho ainda a fazer !"
Mas como eu poderia ? Explicar para esse tremendo profissional o quanto foi importante aquele dia e o que ele fizera ? Ele estava me devolvendo minha autoconfiança. Eu hoje de verdade com esses exercícios aparentemente malucos que me fizeram rir o tempo todo, o Luiz, auxiliado pela Monica me trouxeram a lembrança desse poema que eu adoro. Faz-se caminho ao caminhar, dia a dia, passo a passo, esforço a esforço e...

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”

Ou seja minha gente, quando tudo parece perdido, devemos continuar e continuar sempre. Pois o nosso caminho se faz pela continuidade , pela persistência, por insistir quando tudo parece que não vai dar certo...

Sem dúvida, um grande dia, uma grande emoção e lição de vida !

Por hoje é isso, gente. Amanhã tem mais um caminhar e relato . Até breve !

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